MANUEL JOAQUIM DA ROCHA MARTINS

“ESTA ARTE É BONITA, MAS É MUITO TRABALHOSA”

O veterano dos oleiros de Bisalhães é Manuel da Rocha Martins, irmão mais velho do Sr. Cesário; tem 89 anos, feitos no dia 15 de agosto. Como o irmão, acabou a 4.ª classe e aprendeu a arte da louça churra com o pai, António da Rocha Martins. Ainda que se dedicasse à arte, arranjou emprego como cantoneiro, indo trabalhar para Valpaços, Rio Torto, Santa Marta de Penaguião. Manteve a profissão até casar, aos 29 anos de idade, com Ermelinda Carvalho Monteiro, também ela descendente de uma família de oleiros. Como a sua profissão dava pouca coisa, dedicou-se à roda, aperfeiçoando o trabalho na louça fina com o sogro, Paulino Monteiro.
Conta-nos Ermelinda que foi o seu pai um dos oleiros que começou a fazer louça fina, decorada, quando a procura pela louça utilitária decresceu. Foi igualmente ele quem começou a trabalhar junto à estrada nacional, fazendo com que os outros oleiros aí se instalassem. Confidencia que quando o pai lhe pediu ajuda para levar a roda se fartou de chorar, pois tinha medo. Sabe, «a gente não saía daqui, não sabíamos nada, víamos passar os carros. A gente ficava atormentada.

E ele disse: Ó filha, ninguém me faz mal, eu não trato mal ninguém. E lá lhe fiz a vontade.». Junto à estrada o pai abriu uma mina para esconder a louça durante a noite. Esse buraco foi feito na mata do Sr. Diamantino, que tinha uma venda «das que vendiam tudo: arroz, massa…», e que incentivou o pai a instalar-se na estrada do Marão, cedendo-lhe o terreno. Com 80 anos, a D. Ermelinda completou a 3.ª classe, ainda que não fosse muito comum as raparigas irem à escola. Queria «ao menos saber o meu nome».

Estava entregue à madrinha e andava com as ovelhas. Como era tradição, aprendeu as tarefas destinadas às mulheres, ajudando os pais na olaria. Manteve este papel ajudando depois o marido, gogando e enfeitando a sua louça. Diz que esta arte é bonita, «mas é muito trabalhosa». Os seus desenhos primam pelo risco cuidado e imaginação. Não aprendeu com ninguém – «comprava uma revista de bordados e que tinha assim umas coisas bonitas e eu tentava fazer alguma coisa, outras inventava.».

Também o marido levou a roda para a estrada e trabalhava. Iam a pé, por uns caminhos no meio dos campos e mata. Enquanto isso, a D. Ermelinda picava o barro.