JOSÉ MIGUEL RIBEIRO FONTES

“PODIAS EXPERIMENTAR OUTRA VEZ, DAVAS-LHE JEITO(...)”

O percurso do oleiro Miguel Fontes, de 42 anos, é peculiar. Neto de oleiros, por parte de pai e mãe, aprendeu a arte do barro durante a sua infância observando o avô materno, Nascimento Ribeiro Capelas, e o avô paterno, Joaquim Fernandes Fontes, conhecido como “Quim Mestre” e com quem viveu durante bastante tempo. Os avós dedicavam-se em exclusivo à olaria, além da agricultura de subsistência, com produção de vinho, batatas, couves, os legumes da casa. Por volta dos 13 / 14 anos, à noite, quando a roda estava vaga, experimentou erguer as primeiras formas, escolhendo peças mais baixas, fáceis de levantar.

Estas primeiras experiências com o barro ficaram por aqui, dedicando-se a completar o secundário e, depois, ao trabalho. Conta que não deu mais atenção ao barro.

No início do século, perdeu os dois avôs no espaço de um ano e meio, facto que o marcou. Herdou do avô paterno os instrumentos, o pio onde se mói, a gamela onde se amassa e a roda.

Alguns anos mais tarde decidiu dar continuidade à arte da família graças ao incentivo da mãe, Belmira Capelas Fontes, que lhe dizia «podias experimentar outra vez, davas- -lhe jeito, senão o que vamos fazer a isto?». Preparou o barro, recolocou a roda no lugar e lá foi tentando, tendo sempre em mente as lembranças de como os avôs trabalhavam: «Recordava como eles trabalhavam, que ferramentas usavam, que utensílios usavam, como amassavam o barro, como picavam, como usavam o trapo.». Assim saíram os primeiros alguidares e outras peças simples, como canecas de água. Deste há treze anos que tem levado a olaria mais como um passatempo, uma vez que trabalha a tempo inteiro.

De qualquer modo, está cada vez mais confiante e empenhado no que faz. Encara a atividade como uma forma de manter a tradição da aldeia, que procura passar à sua filha mais nova, que já dá o seu jeito a gogar. A sua preocupação é produzir pucarinhos para a feira de São Pedro, «manter a identidade da Feira dos Pucarinhos; enquanto eu puder pelo menos os pucarinhos hão-de aparecer lá».

Lamenta que nos últimos anos tenha estado sozinho na feira, pois os outros oleiros, pela sua idade e condições de saúde, não têm ido.